Posts tagged: poesia

Nos escudos,
um par de asas.
São morcegos?
Os cassetetes
- microfones da ira -
só admitem silêncios.
Passa, passa, passa…
Quem não advinha o que acontece?
O vento elétrico evapora o rio vermelho
nos olhos que desobedecem ao gás lacrimogêneo.
o poema devora minhas mãos (estou só) e a solidão
é essa espécie de abrigo pela madrugada
toda ela um pouco mais: o poema
destrói minhas verdades como quem destrói mentiras
devora minhas mãos como quem devora o meu corpo. o poema: o corpo
que não é meu e não é seu e que salta da pele desses versos que
/são seus também.
o poema nunca inteiro, febril, me violentando a palavra o silêncio feito
/quando
te descubro tateando os meus pudores e atando cada parte ao
/impossível de mim.
o poema me empurra de um lugar a outro. é essa dor em nossos gestos,
em nossas palavras, em nós dois.
o poema é qualquer coisa de nós dois que ainda não sei dizer
se nos despimos se nos despedimos se nos enredamos
se, então, assim
outra vez:
—
Amar é lutar sem armadura em uma guerra sem perdedores.
Raphaella Bernardes, falsografia
essa mão sobre o meu peito
só pode ser afeto
atravessa com cuidado, amor
esse mar aberto.
Juliana Brina, palavracardiaca
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.
Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.
Mia Couto
sinceridade do tempo,
um dia passado em som.
.
amigo: caminho aberto,
espaço que amplia.
.
habitando a janela
que nunca é a mesma.
d’ angelameili
Pensamentos soltos
Nossa lista da semana é uma ode às palavras ditas, pensadas e escritas.
Tô gato?
O que pensam os gigantes da literatura antes de sair para a balada.
Lugares estranhos
Natércia Pontes escreve, Marcio Távora fotografa.
As coisas findas… ficarão
Poesias escritas e fotografias curadas por Ehre, um usuário talentoso e misterioso, A POETISA.
Oficina de palavras
Citações, reflexões e ferramentas da língua portuguesa.
d’ equipebrasil
sombra:
carne incorpórea colada no tempo.
corpo imaterial, ou a fisicalidade do ausente.
o negativo de uma materialidade anterior –
silhueta de fumaça na parede branca.
(o que se fotografa são fantasmas)
eu sou o livro-fogo que queima, negro.
estive sempre aqui (mas isso não é visível).
agora há o resquício,
e há também a imagem que me cria,
para que eu siga sendo
este outro.
agora sou um traço de pólvora.
a fotografia-fuligem, a imagem-pó –
o livro-espectro.
Joana Corona, via esferacontemplada
O curta-metragem/trailer Until the Quiet Comes traz, em menos de quatro minutos, um compilado de três faixas do disco do produtor Flying Lotus. É um mix de poesias que podem te lembrar tanto Cidade de Deus, quanto trabalhos de Spike Jonze. Ele contrasta muito bem a inocência da infância com o ambiente agressivo do “gueto”, com balas perdidas e corpos atirados pelo chão, encerrando em uma performance quase teatral de um dos baleados, que poeticamente transforma toda a dor em arte.
Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensemos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafacção dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.
A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engulido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engulidos
Deixarão suas heranças, suas memórias
A IDÉIA, meus senhores
E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.
Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra
Do que na mão que esmaga.
A IDÉIA é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens
é mais vasto
Do que a voracidade que nos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco
Aos vossos olhos possa parecer.
HILDA HILST
homenagem a Alexander Solzhenitsyn
via amargem