Cleiri Cardoso, habitar a paisagem

Cleiri Cardoso, habitar a paisagem

Tags: art arte

uma tarde cremosa.
coração, bates; como quem está amoroso ou precisando escrutinar páginas virgens.
há um outono lânguido tiquetaqueando por entre nuvens de lentidão; há um casal de andorinhas se buscando entre antenas e para-raios; há um homembinóculo de camisa azul, no alto de um terraço, violentando janela por janela;
vozes surrealistas de crianças levantam voo por detrás de um varal; um urubu solitário espirala, talvez à cata de carniça entre o crepúsculo.
os sonhos que rabiscam velhos mares não são mais daquela finidade antiga; e ser, nesta meia-hora, é descascar sem muita pressa, é interpretar nuances de magia.
que mistério engravida esta cidade?

Ana C.

(texto para escola datado de 30.3.69. A professora dá 10 e escreve: “Lindo”)

via d-amargem

Aspiração (1973)

Hoje eu quero

um poema transparente,

semelhante à lágrima

que iludiu meus olhos desatentos.

 

Um poema capaz de coragem,

desses que podem ser ouvidos

na chuva, na greve, ao fim

da batalha perdida.

 

Um poema capaz de resistir

como granito ao vento,

como o homem resiste

se o aço lhe alcança o ombro.

 

Um poema capaz de liberdade.

Capaz de falar nesta hora noturna

quando todos dormem, e o silêncio oficial

amordaçou as cantigas do meu povo.

 

- Pedro Tierra, no livro “Poemas do povo da noite

 

[Poemas do povo da noite]. Os poemas de Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva) foram escritos em centros de detenção e tortura (DOI-CODI e DOPS) e nos presídios que receberam prisioneiros políticos (Tiradentes, Carandiru, Barro Branco) nos piores anos e correram o país e outros países. Eram lidos e declamados em reuniões e atos dos movimentos pela Anistia e pela democracia.

via temploculturaldelfos

Tags: poesia brasil

Um poema arenoso

[Para Di, que duvidou de um poema Aquoso, e me fez de bobo com argumentos Botânicos. Dedico este pequeno poema arenoso]


Me calcina a fronte, teu ósculo

Por conta desta tua maestria…
Que num lampejo teu de escolhas fortes ,
se trajam escusas,
atrás destes teus olhos de menina.

Há um que de desterro , e um outro tanto de deserto
Imensidão aberta, vazio a preencher
Aglutinada porção de vida.
Em Busca….

(Pra não esquecer… do colega que sempre me surpreende, Fê Salles)

via d-amargem

Tags: poesia dji

"Engraçado, porque a ponte é ligação, mas as bordas não se encontram nunca (…) acho que me refiro à distância que a gente mesmo estabelece. São barreiras colocadas propositalmente. É triste, bem triste, mas…"

Leonilson

image

(via d-amargem)

(via d-amargem)

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

“Fui aprendendo a achar graça no desassossego. 
Aprendi a medir a noite em meus dedos. 
Achei que qualquer hora eu podia ter coragem.”

via furchten

Tags: literatura

"O senhor sabe o que o silêncio é?
É a gente mesmo, demais"

Grande Sertão: veredas, Guimarães Rosa

via d-amargem

Tags: literatura dji

Pescaria

Cochilo. Na linha.

eu ponho a isca de um sonho.

Pesco uma estrelinha.

Guilherme de Almeida

via seguindoborboletasazuis

"No meu sonho, aquela era a língua do que é, e tudo o que fosse falado nela se tornava realidade, porque nada dito com ela pode ser mentira. A língua é o fundamento da construção de tudo. Nos meus sonhos, eu usei esse idioma para curar os doentes e para voar; uma vez sonhei que tinha uma pequena pousada à beira mar, e para todo mundo que se hospedava lá eu dizia, naquela língua, “sê inteiro”, e eles se tornavam inteiros, e não pessoas fragmentadas, não mais, porque eu havia falado a língua da criação."

Neil Gaiman, O oceano no fim do caminho

via mayaraviana

Tags: literatura

"Para aqueles que podem ver, a existência se passa num rolo de imagens que se desdobra continuamente, imagens capturadas pela visão e realçadas ou moderadas pelos outros sentidos, imagens cujo significado (ou suposição de significado) varia constantemente, configurando uma linguagem feita de
imagens traduzidas em palavras e de palavras traduzidas em imagens, por meio das quais tentamos abarcar e compreender nossa existência. As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo,
experiência, questionamento e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens , assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos"

Alberto Manguel, Lendo imagens: uma História de Amor e Ódio

Tags: sinais

Às vezes é  possível,  ao  que  parece.  Alguns, erguidas as velas, foram ao improvável   e  voltaram  com  notícias:  “a palavra lento se diz rápido”. Para nós, este descobrimento se deu meio que ao modo de um susto. E encontraram esta frase, assim, largada no meio da linguagem. Nós achamos a frase plausível. Ela era uma frase. Até porque a estatura da lentidão não é ao ponto de caber dentro de uma lesma? E acontece que um cágado – eu vi –, para se fortalecer, se diminui. E não se sabe o escuro que faz dentro. “A palavra lento se diz rápido” – aí depois é que entra a palavra silêncio, com mil sílabas. Por exemplo  tenhamos em mente o vaga-lume:  o vaga-lume pisca sua uma vez:  lús-fús:  faz seu intervalo  na paisagem:  o vaga-lume  circunscreve-se – e às vezes ele não sustenta no ombro a memória de uma noite inteira? Acontece destes conformes. Pablo que descobriu simples essa frase no chão, bosteada, sem valor de mercado, corrompida ao ponto do esterco – “A palavra lento se diz rápido”. Este mundo mesmo é ou não é cheio de gente e de antíteses? Pablo escreve  longo e  curto; às vezes  lento  rapidamente e às vezes rápido lenteado. Faz anotações. Dentre o que escreve estão Universos. Pequenos. O twitter, talvez, os desprezaria. Pequenos. Os universos de Pablo não se comportam, regular, em 140 caracteres. O universo é pequeno. Há aquela história de que os menores serão os maiores – eu nada eu não sei, nem nada eu não afirmo. Sei que são pequenos. E a palavra pequeno é grande. E que o folclore científico já comprovou que uma agulha espeta mais que um elefante. É da Física isso. Pode até ser.

Alguns dos Universos de Pablo Ferro:  

universo # 02187

la palabra lento se dice rápido

universo # 198327547

no había nada que ver y lo vimos

universo # 99922

en la oscuro cada sombra hace la diferencia

universo # 2878455

errar es posible si algo funciona

universo # 1982

sed que no has de beber, déjala correr 

universo # 439849384903489906950690596506950695605948778595478859

sombra de la espina de la rosa también pincha

universo # 09155438

el freno al viento lo pone el viento

universo # 298908943048598408594

con exactitud no vamos a ningún lado

universo # 434902

ser es parecer ser, me parece

universo# 44888

Burguer King regala smartphones, está nevando

universo # 44

tenemos una distancia en común

universo # 7

verdad tiene dedos cortos  

universo # 229854

aquí rige la ley del último esfuerzo

universo # 111043

la debilidad de dios es su omnipotencia

universo # 2220931118954

experiencia de ser sin ser hace a la realidad ser

universo # 2892892

dilatación inminente del instante

universo # 0009219893333324324343224

nesse momento: crisântemo

Para mais de Pablo FerroCuadernos Tibetanos
Para mais Universos de Pablo FerroUniversos

via itsarandomtumblr

'Enough', Delawer
via furchten

'Enough', Delawer

via furchten

Tags: art

Silvio Severino

via 2headedsnake

(Fonte: cargocollective.com, via ypsilonka)

Tags: art colagem